Inspirações
Era uma vez a Eliana e o cabritinho da Avó

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São 11h da manhã quando nos tocam à campainha. Chegam sorridentes, de sacos aviados e com muita vontade de nos deliciarem com alguns dos seus pratos de eleição. Mas sem pressas: n’O Apartamento tudo o que envolva comida pede tempo para provar, desfrutar e partilhar.

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Eliana Nunes e Miguel Rita percebem o conceito desde o primeiro minuto, mas mesmo assim atiram-se aos tachos com a mesma rapidez e destreza com que o fazem todos os dias no restaurante Pratinho Feio, onde dividem a cozinha. Não são cozinheiros de formação, mas de coração não podiam ser mais. E isso traduz-se na forma gentil com que trabalham os alimentos, brincam com os sabores e se deleitam à mesa na hora de os provar. Enquanto trabalhamos no escritório, o aroma a cominhos e demais especiarias enche-nos o nariz e faz-nos roncar o estômago. É cheiro de comida caseira, a mesma que serve de ponto de partida ao que apresentam no restaurante.

A larga maioria das receitas que servem ao público tem origem na vida familiar de Eliana. Nascida em Angola e criada entre Castelo Branco e uma aldeia recôndita perto da Sertã, sempre adorou as horas passadas ao fogão com a avó e com a mãe. Os estudos levaram-na ao universo da animação turística, mas o destino quis que acabasse por experimentar a vida de restaurante durante um tempo, para fazer uns trocos extra. Apaixonou-se. E decidiu que era isto que afinal queria fazer da vida.

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Passou por cozinhas de outros durante cinco anos e, aos 28, percebeu que se queria continuar a fazer isto teria de ser à sua maneira. “Trabalhar numa cozinha não é uma vida fácil. Ou estás num sítio em que te sintas em família ou abres algo que seja teu”. À falta da primeira, Eliana seguiu pela segunda opção.

Um dia cruzou-se com duas amigas, a Ana Reis e a Joana Girão, enquanto comprava beringelas na mercearia do bairro e decidiram juntar-se para abrir um restaurante. Baseado nas receitas da avó e da mãe de Eliana, nasceu assim o Pratinho Feio, um espaço de comida nem sempre bonita aos olhos, mas sempre honesta com o estômago.

O cabritinho da avó na caçarola, que nos cozinhou nesta visita, é apenas um dos muitos exemplos.

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Cabritinho da Avó com miga de batata

Com Miguel enquanto seu braço direito – que também andava baralhado entre a área de artes do espetáculo e o amor pela restauração – faz uma equipa de peso. Contra todos os reveses da época de crise, o Pratinho Feio celebra em breve um ano de existência. Com muita criatividade, dedicação e paixão pela arte de bem comer. Como diria o escritor moçambicano Mia Couto, “cozinhar é um modo de amar os outros”. A ser verdade, Eliana e Miguel são prova disso.

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Crumble de lemon curd com chantili de mangericão