Três Perguntas a:
Chef Kiko Martins

Kiko Martins nasceu no Rio de Janeiro mas no seu sangue corre a força da raça transmontana. Contudo – e após uma licenciatura em gestão de marketing e estudos na Cordon Bleu, em Paris – , acabou por adicionar ao seu código genetico influências gastronómicas de todo o mundo quando viajou, com a mulher, durante dois anos, por mais de vinte países. Essa aventura materializou-se em crónicas no Expresso e num livro, o Comer o Mundo. Desde aí, Kiko cresceu no panomara gastronómico português, participou em programas de culinária como o Chef’s Academy e o Cook Off. Neste momento tem dois restaurantes em Lisboa, O Talho e A Cevicheria.
Perante tanta história e provas dadas, O Apartamento quis que o chef Kiko estreasse mais uma nova ideia deste projeto, o Out of the Box. Duas vezes por ano, entre as quatro paredes deste apartamento luminoso, um chef será desafiado a cozinhar um jantar intimista, sempre com um tema surpreendente. Neste primeiro jantar, o chef Kiko escolheu o Surf&Turf, isto é, a combinação do mar com a terra – peixe ou marisco com carne -, como denominador comum a todos os pratos. Nos pratos e mesas d’ O Apartamento passearam-se barrigas de porco de mãos dadas com vieiras e até pele de galinha com gelado de algas. Um jantar fora da caixa que foi um sucesso. Obrigada Kiko.
Três perguntas ao chef Kiko Martins

Porque é que escolheste o Surf &Turf como tema para este jantar?
A ligação entre o mar e a terra sempre me atraiu muito pela dinâmica que pode conferir a um prato. Nunca achei muita piada a ver barreiras muito definidas nos menus entre pratos de carne, pratos de peixe ou pratos vegetarianos. Considero que é interessante desafiar esta lógica estanque e o Surf/Turf é uma forma diferente de pensar a comida. O peixe e a carne ligam muito bem. Na cozinha portuguesa, por exemplo, temos a carne de porco à alentejana que junta a carne com os mariscos. A escolha deste tipo de pratos resultou da vontade de inovar e apresentar um prato dinâmico e criativo em que pudesse apresentar uma Pele de Galinha Crocante com Gelado de Algas e misturar um prato tailandês com Magret de Pato, Foie Gras e um molho típico de mariscos.

Qual é a tua impressão do Apartamento?
É uma ideia genial que corresponde a uma tendência que tem crescido nos últimos anos. Já conhecia “O Viajante”, a pequena cozinha do Nuno Mendes em Londres, que partilhava algumas linhas ideológicas com O Apartamento. Acho muita piada à ideia de convidar vários chefs para um espaço mais intimista e dar a provar ao público uma experiência diferente.

A melhor/pior/mais engraçada/incrível/surreal história que já te aconteceu como cozinheiro?
Posso contar um episódio que aconteceu num pequeno restaurante que tive há uns anos. Certo dia, ia servir Empada com Bobó de Camarão e tinha uma travessa na mão com cerca de 70% dos almoços que ia servir nesse dia. Deixei cair o tabuleiro no chão antes de começar o serviço. Eu estava sozinho e 15 minutos depois ia receber 50 pessoas para almoçar. Estava tramado e fiquei completamente com o coração nas mãos. A pressão estimulou a criatividade. Tinha arroz cozido, grelos cozidos, encontrei massa brie e alheira no frigorífico e de repente fiz com a alheira uns rolos com massa filo e acompanhei com arroz de grelos e um toque de tomate. Esta situação caricata e complicada gerou um prato vencedor que acabou por ficar muito tempo na carta: Folhado de Alheira com Arroz de Grelos.

Fotos: © 2015 Arlindo Camacho
